segunda-feira, maio 29, 2017

Vaccari e ex-diretores da Funcef se tornam réus na Greenfield

Lucas Vettorazzo E Angela Boldrini
Folha de São Paulo


Alan Marques/ Folhapress
Agentes da PF descarregam documentos apreendidos na Operação Greenfield

A Justiça Federal em Brasília aceitou a primeira denúncia contra a antiga cúpula da Funcef, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica, e ex-dirigentes da Engevix, em esquema de desvios apurado pela Operação Greenfield.

Segundo decisão da proferida na quarta-feira (24), 14 pessoas passam à condição de réus por crimes como corrupção ativa, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta de instituição financeira, apropriação indébita e emissão de títulos sem lastro ou garantia.

Dois dos denunciados são ex-presidentes da Funcef: Guilherme Narciso de Lacerda e Carlos Alberto Caser. Roberto Carlos Madoglio é ex-superintendente de fundos de investimentos da Caixa.

José Carlos Alonso Gonçalves é sócio da Engevix, assim como Cristiano Kok. O lobista Milton Pascowitch, delator da Lava-Jato, também foi denunciado.

O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, atualmente preso pela Lava Jato, também está entre os réus porque as investigações apontaram que parte do dinheiro supostamente desviado do fundo teria ido para contas do partido.

A investigação apurou desvios de dinheiro do fundo por meio de investimentos na empresa Cevix Energias Renováveis, de propriedade da Engevix. De setembro de 2009 a agosto de 2010, foram aportados R$ 260,670 milhões em cotas de participação na empresa.

Segundo o Ministério Público Federal, a empresa teria sido supervalorizadacom laudos fraudulentos e sem parecer técnico da controladoria do Funcef.

De acordo com a denúncia, o prejuízo ao Funcef com a operação foi de R$ 402 milhões. No decorrer do esquema, os dirigentes da Engevix teriam desviado R$ 63 milhões que seriam investidos na empresa.

Dos recursos desviados, R$ 5,9 milhões teriam sido repassados ao PT, segundo a denúncia.

A denúncia foi aceita pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, em desfavor de Demósthenes Marques, Guilherme de Lacerda, Luiz Torelly, Antônio de Carvalho, Geraldo da Silva, Sérgio da Silva, Carlos Alberto Cases, José Carlos Gonçalves, Roberto Carlos Madoglio, José Antunes Sobrinho, Gerson Almada, Cristiano Kok, Milton Pascowith e João Vaccari Neto.

É a primeira vez que uma denúncia é aceita no âmbito desta operação.

OPERAÇÃO
A Operação Greenfield, cuja primeira fase foi deflagrada pela Polícia Federal em 5 de setembro de 2016, investiga supostos prejuízos em em fundos de pensão de funcionários de empresas estatais.

A investigação focou nos quatro maiores fundos de pensão do país: Funcef, Petros, Previ e Postalis.

Na primeira fase, foram determinados o sequestro de bens e o bloqueio de ativos e recursos bancários de 103 pessoas físicas e jurídicas, num total aproximado de R$ 8 bilhões.

Sua segunda fase ocorreu em 3 de março de 2017. Entre os principais alvos estavam os irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo J&F, que estão no centro da crise política que atinge o governo de Michel Temer (PMDB). Os dois são investigados, mas não há denúncia aceita contra eles.

Segundo a PF, os delatores fariam parte de um suposto esquema de cooptação de testemunhas que poderiam ocultar provas úteis no esclarecimento dos crimes da Greenfield.

OUTRO LADO
Por meio de nota, a Funcef afirmou que "está colaborando de forma pró-ativa com o Ministério Público, investigando e produzindo provas visando a total elucidação dos fatos".

No texto, a fundação disse ainda que "também deverá ingressar com pedido de reparação civil e repsonsabilidade administrativa, a fim de cobrar os prejuízos decorrentes da ação".

Rafael Favetti, advogado de Guilherme Lacerda, ex-diretor da Funcef, afirmou que espera citação para se manifestar sobre o caso.

Em nota, a Engevix disse que demonstrará na Justiça que não houve irregularidades no investimento do Funcef. A empresa ressaltou que tem atuação reconhecida no setor de energia.

"A Engevix é reconhecida no Brasil e internacionalmente pelo seu padrão de qualidade na área de projetos de energia, em que atua há quase 50 anos. A empresa demonstrará na Justiça, mais uma vez, que nada de errado houve nesse investimento", disse a empresa em nota.

O advogado de Vaccari Neto, Luiz Flávio Borges D'Urso, afirmou que ainda não tomou conhecimento do teor da denúncia. Disse apenas que "não procedem" as acusações que vêm sendo divulgadas.

A Folha ainda não conseguiu contato com a defesa dos demais réus. 

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