sábado, abril 14, 2018

Após sete anos, guerra síria ainda não tem fim no horizonte; entenda

Lucas Moretzsohn
O Globo

Protestos contra ditadura de Assad degeneraram em conflito envolvendo toda a região


RIO - Um grito por liberdade que se tornou um pesadelo. Há sete anos, tinha início a guerra na Síria. São mais de 2.500 dias de um conflito que se aprofunda diariamente, ainda sem fim no horizonte. O que começou como uma questão entre a ditadura da família Assad — no poder desde 1970 — e opositores se desdobrou para um tabuleiro complexo com a interferência de agentes externos e internos, com ideologias divergentes e que reivindicam interesses políticos, sociais, econômicos e religiosos sobre o país. Em meio a toda destruição, a tragédia é tamanha que causou uma das maiores crises migratórias registradas na História moderna, com a fuga de mais de 5 milhões de sírios.

Estimativas sobre a reconstrução do país já superam a casa de US$ 300 bilhões, segundo organizações humanitárias. Com o envolvimento de diferentes países que tentam contribuir para uma solução, a situação na Síria é marcada por avanços e retrocessos humanitários e diplomáticos que tornam refém uma população que antes clamava por liberdades políticas e civis, e agora se encontra desamparada. Nem mesmo períodos de trégua definidos por resoluções internacionais foram capazes de amenizar o sofrimento, com hospitais e escolas entre alvos frequentes.

Veja abaixo a evolução da guerra que assola o povo sírio e afeta as relações na comunidade internacional até hoje.

1) Como teve início a Guerra da Síria?

Em março de 2011, uma série de manifestações pró-democracia eclodiu em Deraa, no Sul, inspirada na Primavera Árabe — movimento de protesto contra regimes autoritários que se espalhou por diversas nações do Oriente Médio e da África do Norte a partir de 2010, com início na Tunísia.

O governo respondeu à situação com forte repressão e, em 2012, os enfrentamentos chegaram à capital, Damasco, e a Aleppo. No ano seguinte, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) já registrava um milhão de refugiados.

Cisões internas na oposição levaram ao surgimento de setores radicais, que incluem a Frente al-Nusra (braço sírio da al-Qaeda) e o Estado Islâmico (EI). Com isso, o conflito deixou de ser apenas um impasse entre governo e opositores e ganhou aspectos de um conflito entre a maioria sunita do país e xiitas alauitas, vertente à qual pertence o presidente sírio, Bashar al-Assad. O EI passou a combater tanto os rebeldes da oposição moderada quanto o governo de Assad, a fim de instaurar seu próprio califado, cuja capital seria a cidade de Raqqa.

2) Quais os maiores agentes externos envolvidos?


  MIKHAIL KLIMENTYEV / AFP
O presidente russo, Vladimir Putin, aperta a mão de seu homólogo, 
Bashar al-Assad, durante um encontro em Sochi, no Sudoeste da Rússia 

Desde setembro de 2015, a Rússia apoia forças do regime sírio com suporte bélico e estratégico. A intervenção ajudou o governo a retomar significativas porções de terra, entre elas Aleppo, um dos principais redutos dos rebeldes, em dezembro de 2016.

Aliado a eles está o Irã, que recruta milícias xiitas para a guerra. Alinhar-se a Assad e manter certa influência sobre o conflito sírio é essencial para Teerã, uma vez que o território sírio é o principal trajeto para levar carregamentos de armas iranianas ao Líbano para a milícia e partido xiita Hezbollah.

Desde setembro de 2014, os Estados Unidos lideram uma coalizão internacional que ajudou a combater o EI no país, e apoiam opositores do presidente, sobretudo a aliança curdo-síria das Forças Democráticas Sírias (FDS). Os principais integrantes da FDS são a milícia curda das Unidades de Proteção do Povo (YPG), e o Exército Livre da Síria (ELS), nascido de dissidentes do Exército sírio.

A Turquia fornece apoio aos rebeldes, mas ao mesmo tempo enfrenta curdos em Afrin. Ancara vê as YPG como um grupo terrorista, estreitamente ligado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), envolvido em uma guerrilha sangrenta por independência no terreno turco desde 1984.

3) Qual é a atual configuração da guerra?

  
STR / AFP 
Um membro das forças pró-governo sírio carrega 
uma bandeira do grupo Estado Islâmico - 

A guerra síria entra em seu oitavo ano marcada pela dispersão de diferentes frentes de combate. Com o apoio de seus aliados, o governo sírio já conseguiu retomar mais da metade do território ocupado por rebeldes e pelo EI, que foi fortemente derrotado. Em 2017, forças do governo sírio, apoiadas pela Rússia, e a coalizão internacional liderada pelos EUA reconquistaram as principais regiões controladas pelos extremistas: as cidades de Raqqa e Deir ez-Zor, no Centro do país. Com a queda do EI em seus bastiões, estima-se que atualmente os jihadistas controlem apenas 3% do território sírio.

Em Afrin, no Noroeste da Síria, a Turquia iniciou em janeiro uma ofensiva contra os curdos das YPG, que passaram a ocupar boa parte da área após a expulsão do EI. O governo turco já prometeu expulsar as YPG, que considera “terroristas”, e avançar numa ação militar até a fronteira com o Iraque.

Além disso, há quatro principais regiões com maior concentração de rebeldes contra Assad: Idlib; Damasco e Ghouta; Homs; e Deraa. Ainda que essas regiões tenham sido consideradas zonas de distensão, com a ordem de suspensão de combates, o governo sírio tem avançado em ofensivas para retomar o controle, com apoio russo. Nas últimas semanas, o regime de Assad intensificou seus esforços na retomada de Ghouta Oriental, apesar de cessar-fogos anunciados por ONU e Rússia. Os recentes bombardeiros já deixaram mais de 1.100 mortos, segundo monitoradores do conflito.

4) Quem são os rebeldes armados?

ZEIN AL-RIFAI / AFP
Forças rebeldes se posicionam na região de al-Zahra, perto de Aleppo 

Além das Forças Democráticas Sírias e do Exército Livre da Síria, há três principais grupos rebeldes que o governo sírio tem combatido. O Jaysh al-Islam (Exército do Islã) é o maior grupo rebelde em Ghouta Oriental, e seus cerca de dois mil combatentes controlam uma rede de túneis que, antes do cerco do regime, conectava a região a Damasco.

O Faylaq al-Rahman (Legião al-Rahman) é o segundo maior na região, aliado do Exército Livre da Síria — nascido no início da guerra em 2011. Eles têm maior predominância nas regiões central e oeste de Ghouta Oriental, e dividem parte do sul com os rivais do Jaysh al-Islam, incluindo as cidades de Jobar, Zamalka, Kafr Batna e Marj al-Sultan.

Já o Tahrir al-Sham é aliado ao Faylaq al-Rahman e composto principalmente por membros da Frente al-Nusra. Ainda que tenha se desvinculado do grupo, adota ideologias parecidas, incluindo visões anti-Ocidente.

5) Qual é o impacto da guerra?


Sete anos da guerra síria em números (mar/2018)

511 mil mortes


DAS QUAIS...                   350 mil vítimas identificadas
                    

DAS QUAIS...                   106.390 civis   
               

DAS QUAIS...                    19.811 crianças


11,7 milhões de deslocados


6,1 milhões de deslocados internos

5,6 milhões de refugiados buscam ajuda em países vizinhos:Líbano, Jordânia, Iraque, Egito e Turquia


67 ataques contra instituições de ensino em 2017

Uma a cada três escolas foram danificadas ou destruídas, estão sob uso militar ou são utilizadas como abrigo de deslocados

14 milhões sem acesso a água e saneamento

108 ataques contra hospitais em 2017

Metade das instalações médicas inativas ou parcialmente funcionando

12% de crianças  com até 5 anos com desnutrição aguda em Ghouta Oriental


De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), a guerra causou mais de 511 mil mortes desde 2011, das quais 350 mil foram nominalmente identificadas. Dentre as mortes, 106.390 são civis, incluindo 19.811 crianças.

Dados mais recentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) revelam uma situação de crise humanitária crítica na Síria. Mais de cinco milhões de pessoas foram obrigadas a buscar segurança nos países vizinhos, e, apenas em 2017, ocorreram 67 ataques contra instituições de ensino e 108 contra hospitais. Metade das instalações de assistência médica no país está parcialmente funcionando ou inativa.

Mais de 14 milhões de pessoas não têm acesso a água e serviços de saneamento e higiene. Cerca de 35% da população dependem de fontes de água insalubres para atender suas necessidades. Devido ao cerco do governo em Ghouta Oriental desde 2013, quase 12% das crianças com menos de 5 anos sofrem de desnutrição aguda — a maior taxa registrada desde o início do conflito.


6) O que foi feito para solucionar a questão?


MIKHAIL METZEL / AFP
Rouhani, Putin e Erdogan se reúnem em Sochi: 
acordo de 2017 muda os rumos da guerra síria e afasta os EUA  

Com muitos envolvidos no conflito, a guerra na Síria passa por um complexo processo diplomático, sem previsão concreta de fim. Sem nenhum lado inclinado a recuar, a ONU começou a agir em 2012, quando o Conselho de Segurança pediu a implementação do Comunicado de Genebra 2012, que exigia o estabelecimento de um órgão governamental com poderes executivos para implementar uma transição política na Síria. Em 2014, a organização passou a intermediar negociações de paz em Genebra. Nove rodadas de debates aconteceram desde então, mas pouco avanço foi feito.

Paralelamente, Rússia, Irã e Turquia patrocinaram rodadas de negociação em Astana, no Cazaquistão, iniciadas em janeiro de 2017. Entre os resultados das seis reuniões desse processo está a criação das zonas de distensão. Outra consequência foi a realização do Congresso de Diálogo Nacional para a Síria em Sochi, mas os rebeldes armados e opositores políticos de Assad rejeitaram participar.

7) Houve algum avanço para frear a guerra?


DELIL SOULEIMAN / AFP
Mulher síria carrega caixa de víveres do Unicef para casa, em Deir Ezzor- 

Ao longo dos sete anos, vários cessar-fogos foram anunciados em diferentes pontos do país, mas as ordens foram desrespeitadas pelos combatentes de todos os lados. Recentemente, a ONU e organizações humanitárias começaram a lentamente conseguir retomar o envio de ajuda ao país, principalmente a Ghouta Oriental. Autoridades da Organização Mundial da Saúde indicaram, no entanto, que o governo sírio impediu que a maior parte dos materiais médicos entrasse no enclave rebelde. A região era considerada o último reduto rebelde próximo a Damasco. Em abril de 2018, a cidade de Douma foi alvo de um suposto ataque químico, que deflagrou um ataque conjunto de EUA, Reino Unido e França.

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