sábado, abril 14, 2018

Com ação na Síria, Trump joga o mundo em terreno desconhecido

Henrique Gomes Batista, Correspondente 
O Globo

Ataque do presidente, que estava encurralado, pode ter desdobramentos graves. Reação russa é chave para determinar dimensão da ameaça

  YURI GRIPAS / REUTERS
Trump faz pronunciamento anunciando lançamento de mísseis contra a Síria 

TAMPA, FLÓRIDA. Depois de muito ameaçar, Donald Trump decidiu agir contra o suposto uso de armas químicas por Bashar al-Assad de forma mais incisiva do que o ocorrido há um ano, quando o presidente americano também tentou punir outro ataque químico da Síria. E o cenário atual também parece mais grave. Trump está mais belicoso, Assad praticamente recuperou todo o poder de antes e Vladimir Putin, o grande suporte do ditador sírio, está mais forte. E agora os americanos contaram com o apoio de ingleses e franceses. O fato é que, até o momento, ninguém sabe até onde vai a atual retaliação.

A maior dúvida — e temor — é se essa frente pode desencadear uma guerra nos moldes da Guerra Fria, onde as duas potências mediam forças em “conflitos de terceiros”. Apesar de Trump ter dito que a ação militar poderia criar uma “campanha sustentada” para acabar com as armas químicas na Síria, seu secretário de Defesa deu o assunto por encerrado após ataques pontuais a instalações militares do país árabe, e tentou amenizar um pouco o tom com os russos. Mas um enfrentamento desta natureza não se resolve de um lado, apenas. As reações russa, síria e até iraniana (em menor medida, pois Teerã também apoia Damasco) podem abrir novos capítulos de acusações, ameaças e, potencialmente, mísseis. Agora cercado agora por assessores linha-dura, Trump parece não ter medo de ir à guerra.

Há muitas questões abertas sobre Moscou. A reação do Kremlin poderá ser a chave para esta crise. Atacando a Síria, Trump visa Vladimir Putin. Só que o presidente russo está mais forte que há um ano, após sua vitoriosa reeleição, e ainda mais acuado no cenário internacional, depois do episódio do envenenamento de um ex-espião no Reino Unido. E, acuado, Putin é capaz de tudo.

A atuação americana também se mostra tardia e carente de estratégia, o que amplia o grau de incertezas. Depois de fazer vistas grossas a Assad, que ultrapassou a “linha vermelha” estabelecida pelo ex-presidente Barack Obama, o governo americano deixou o sírio recuperar a força, tudo porque ele se mostrou eficiente contra o Estado Islâmico. O ataque americano a uma base síria há um ano, após um outro uso de armas químicas contra civis, foi apenas uma mensagem, mas sem poder de mudar o desenrolar da crise síria, como vimos até agora. Esta nova ação americana pode deixar o futuro do país novamente em aberto pois, os EUA indicam que não aceitarão armas químicas: e o mundo aceitará de volta ao cenário global o líder que promoveu tal atrocidade?

Hassan Ammar / AP
Disparo é visto no céu de Damasco: EUA lançam ataque 
contra a Síria em conjunto com Reino Unido e França 

Por fim, Trump, que já está em “guerra verbal” contra a China e em tratativas de um acordo com a Coreia do Norte, tem agora a real possibilidade de entrar em uma guerra pantanosa, perigosa e potencialmente com consequências globais, por mais que demonstre que gostaria de abandonar o abacaxi sírio. E isso, por incrível que pareça, pode fortalecê-lo. Americanos de todas as colorações partidárias criticam o uso de armas químicas contra crianças. E, em guerra e poderoso, Trump desvia a atenção de sua delicada situação interna com advogados alvos do FBI e ex-colaboradores denunciando sua tentativa de obstruir a Justiça. Da mesma forma, Theresa May pode obter um pouco de trégua em suas crises internas no Reino Unido e Emmanuel Macron, mais um palco para testar sua posição de líder global.

Assim como disse Michel Temer em relação à intervenção militar no Rio, Trump pode considerar a ação forte contra a Síria uma “jogada de mestre” para, de quebra, tirar do fogo a panela de pressão de seus problemas políticos e judiciais internos, que pioram a cada dia. O risco é a aposta sair errada, com consequências que podem ir muito além do sofrido povo sírio, da força imperial de Putin e do mundo político de Washington. E sem mudar as perspectivas dos sírios que, seja por armas químicas ou convencionais, seguem morrendo.

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